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Por que não prometemos rentabilidade — e por que quem promete está te enganando

16 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Se você já pesquisou sobre carteiras de investimento automatizadas, provavelmente viu um gráfico assim: uma linha azul (a "estratégia") subindo bem mais rápido do que uma linha cinza (o benchmark), com uma legenda dizendo algo como "+340% em 10 anos". É um gráfico convincente. E, na imensa maioria das vezes, é uma forma sofisticada de enganar — às vezes de propósito, às vezes sem a própria casa perceber.

O truque mais comum do mercado: testar até dar certo

Construir uma estratégia de investimento envolve escolher parâmetros: quais ativos entram, que peso cada um recebe, quando rebalancear, que sinais disparam uma troca. Se você testa centenas de combinações desses parâmetros contra os mesmos dados históricos e escolhe a que teve o melhor resultado, você não descobriu uma estratégia melhor. Você encontrou a combinação que, por acaso, encaixou melhor no ruído daquele período específico.

Esse fenômeno tem nome na literatura acadêmica: overfitting (sobreajuste). O problema é que ele é praticamente invisível olhando só para o resultado — o gráfico bonito parece igual, não importa se veio de uma estratégia real ou de um acaso bem escolhido.

Como testamos isso na nossa própria carteira

Em vez de mostrar só o gráfico e pedir que você acredite, aplicamos dois testes estatísticos desenhados justamente para separar "estratégia real" de "acaso disfarçado de estratégia" — os mesmos usados por gestoras institucionais sérias (a referência é o trabalho de Marcos López de Prado, um dos nomes mais citados em finanças quantitativas):

  • Deflated Sharpe Ratio (DSR):pega o índice de risco-retorno da estratégia e "desconta" o efeito de termos testado muitas variações antes de chegar nela. Quanto mais combinações você testou, maior a chance de uma parecer boa só por sorte — o DSR corrige por isso.
  • Probability of Backtest Overfitting (PBO): estima, em porcentagem, a chance de que o resultado do backtest não se repita fora da amostra usada para construí-lo.

O resultado — mesmo não sendo o que a gente queria mostrar

Rodamos essa validação contra o CDI (o benchmark mais honesto para o investidor brasileiro, já que é o que você ganharia sem correr risco nenhum). O resultado: o intervalo de confiança do retorno em excesso da nossa carteira inclui zero. Em português: não temos evidência estatística suficiente para afirmar que a carteira supera o CDI de forma consistente. A probabilidade de overfitting (PBO) calculada ficou em torno de 0,455 — quase moeda lançada para o ar.

Poderíamos ter escondido esse número, mostrado só o gráfico bonito e deixado você imaginar o resto. Não fizemos isso — e não é modéstia, é o princípio que rege a Donare: mordomia fiel começa por não prometer o que não podemos entregar.

Então por que ter uma carteira gerida, se não há alpha comprovado?

Porque retorno acima do mercado nunca foi a única coisa que uma carteira bem construída entrega. O que continua real e mensurável, mesmo sem alpha comprovado:

  • Diversificação de verdade entre classes de ativo (renda fixa, ações brasileiras e internacionais, ouro, fundos imobiliários), calibrada ao seu perfil de risco — não ao que sobrou depois de outras prioridades.
  • Rebalanceamento disciplinado, que existe para te proteger do maior inimigo do investidor: você mesmo, tomando decisões emocionais no pior momento (mais sobre isso no artigo sobre rebalanceamento).
  • Eficiência fiscal — o motor sempre calcula o custo de Imposto de Renda antes de sugerir qualquer venda.
  • Um plano que começa pela generosidade, não pela ganância — o que muda a pergunta de "como bater o mercado" para "como cuidar bem do que foi confiado a mim".

O que fazemos com esse número em vez de escondê-lo

Continuamos testando. Rodamos paper trading — a carteira operando com dados reais, sem dinheiro de verdade, comparada contra o CDI dia após dia — pelo tempo que for necessário antes de qualquer promessa mudar. Se um dia a evidência estatística mudar de forma honesta e replicável, você vai ser o primeiro a saber, com o mesmo rigor que usamos para contar que ainda não chegamos lá.

"Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito."

— Lucas 16:10

Ser fiel com um número que não favorece nosso marketing é, para nós, parte do mesmo princípio que rege a doação antes do investimento: o compromisso é com a verdade e com quem confia na gente, não com o gráfico mais bonito.